Ciência explica como a repetição e simplicidade garantem que faixas pop grudem na cabeça, o que as mantém nas paradas de sucesso, o que garante que elas toquem mais e, bem, continuem na nossa cabeça.

Quando eu encarei a difícil tarefa de ouvir todas as 25 músicas doScorpion, disco do Drake lançado em junho desse ano, “In My Feelings” não foi uma das músicas que me chamou a atenção de cara — estava bem longe de ser tão contagiante quanto os singles anteriores, “God’s Plan” e “Nice for What” por exemplo. Porém, depois de umas duas ou três semanas do lançamento, a frase “Kiki, do you love me?” estava permanentemente marcada no meu cérebro e toda audição do álbum implicava em tocá-la ao menos umas dez vezes antes de conseguir passar pra próxima.

E, pelo jeito, eu não estava sozinha. A faixa estreou no sexto lugar na Billboardem julho, e desde então já chegou ao primeiro lugar e estourou o recorde de faixa com mais streamings em uma só semana, com 116 milhões de streams. Ela ainda está entre as 50 faixas mais tocadas de diversos países no Spotify, incluindo o Brasil, onde se encontra em nono lugar. A internet também deu sua contribuição, transformando “In My Feelings” numa quantidade de memes inacreditável e até num desafio de dança em que até o Zé Gotinha se aventurou.

Semanas depois, em meio a essa loucura de popularidade de mais uma música do Drake, meio veio um estalo: como isso tudo começou? Eu acompanhei bastante a repercussão do disco nos primeiros dias após o lançamento, e não havia parecer nenhuma preferência geral palpável por essa música. Comecei a questionar até o meu próprio gosto. Será que eu tinha começado a gostar do som meramente por um efeito manada? Por que aquele questionamento meloso do Drake não saía da minha cabeça por nada? Kiki, você me ama de verdade?

Mas a resposta pra todas essas perguntas não começa no Drake, nem mesmo no hip hop, nem mesmo na música pop como um todo. O sucesso de faixas como “In My Feelings” pode ser muito facilmente explicado pela psicologia, como me conta a musicoterapeuta, mestre em Educação, Arte e História da Cultura e docente do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) Priscila Mulin. Ela conta que a mente humana cria habituação a sons desde o início da vida, sendo a primeira dessas habituações à repetição e simplicidade. “O ritmo repetitivo altera nossa consciência, porque é como se a gente se concentrasse naquele som e ela se dissipasse”, fala a professora. “Os padrões repetitivos tendem a fazer a gente querer manter a repetição: ou seja, ouvir a música novamente. Mas não são só questões rítmicas: também se trata do que é repetitivo naquela cultura.”

Essa busca matemática pelo hit perfeito, porém, foi sendo aperfeiçoada ao longo de décadas. Durante a busca em entender a experiência musical no livro O Som e o Sentido, o artista e acadêmico José Miguel Wisnik afirma que a música popular — e por música popular, aqui, entendemos todo gênero que não siga um caminho experimental ou de concerto — busca afirmar a escuta linear, a repetição e o pulso rítmico, mas que essa procura começou nas tradições musicais tanto ocidentais quanto orientais.

A chamada música modal — encontrada na música tradicional de, entre outros, povos africanos, indianos, chineses, japoneses, árabes, indonésios ou indígenas da América — é marcada pela circularidade, repetição e por seu uso ritual. Essa tradição foi desconstruída vigorosamente no começo do século 20 pelo dodecafonismo: construção em série de doze diferentes semitons, de modo que se retarde pelo maior tempo possível um som já escutado, o que rejeita a repetição e dificulta a memorização. Mas o dodecafonismo encontrou sua oposição já na segunda metade do século com a ascensão do minimalismo, que elege como mote a repetição exaustiva. Na opinião de Wisnik, é o gênero musical que melhor representa o “caráter serial-repetitivo do mundo pós-industrial informatizado”, além de ser o que gruda mais facilmente na cabeça do seu espectador.

Isso explica também a abordagem mais minimalista que muito da música pop tomou nos últimos anos, especialmente o hip hop e R&B. Não só instrumentalmente, com o “cloud rap” e a vibe cada vez mais atmosférica de artistas populares como The Weeknd e Ariana Grande, mas também liricamente: “Versace”, dos Migos, “Gucci Gang”, do Lil Pump — que contam com refrões que bradam apenas a repetição de uma mesma palavra — e os hits quase sem versos, só com refrões e adlibs de Playboi Carti são claros exemplos disso. Para Mulin, isso quer dizer que cada vez mais a música tenderá a acionar uma escuta em um modo automático, sem reflexão, que leva à perda da capacidade de ampliar repertório e análise musical.

A formação de um gosto ou identidade musical, então, passa a ser um ciclo vicioso que se baseia num Top 40 da Billboard. A escuta se torna inevitável pois, como uma vez disse o compositor e acadêmico R. Murray Schafer, o ouvido não tem pálpebras: se um som está tocando, somos obrigados a ouvi-lo e, nosso cérebro, a processá-lo. Isso explica a fascinação por “In My Feelings” e tantos outros hits que de cara você não gostou, mas acabou martelando o dedo no repeat: segundo Mulin, a familiaridadade gera o sentimento de “eu conheço, então eu gosto.” “Não é necessariamente uma preferência consciente, mas uma preferência imposta”, fala.

Ou seja: quanto mais pessoas ouvem, mais aquilo toca, o que faz as pessoas quererem ouvir mais, o que garante que o som toque mais ainda e assim sucessivamente até que todos estejamos dançando e fazendo coraçãozinho com as mãos fora do carro. Mas se até o Zé Gotinha e a MC Pocahontas caíram quem somos nós, meros mortais, para resistirmos?

Reprodução : https://bit.ly/2wqfNiK

 

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